3 de março de 2006

Carrazede: Uma escola só com crianças ciganas

O que têm em comum a Nice, o Ângelo, a Domingas, a Isa, o José Augusto, o Edgar e o Mário? Para além de serem os únicos alunos a frequentar a Escola Primária da Carrazede são todos de etnia cigana...

Inaugurada em 1968, a Escola Básica do 1.º Ciclo de Carrazede n.º 1 tem, desde há três anos a esta parte, uma singularidade: é frequentada, exclusivamente, por alunos de etnia cigana. A professora Helena Lourenço, com a preciosa ajuda da auxiliar de educação Luísa Leal, é a responsável pela educação escolar destas crianças que tem idades compreendidas entre os seis e os doze anos.


“Eles gostavam de ter colegas que não fossem ciganos mas os pais das outras crianças preferem pô-los noutras escolas ”, começou por apontar a professora Helena Lourenço.
Professora há 18 anos, é o primeiro ano que Helena Lourenço, 39 anos, ensina uma turma de alunos exclusivamente de etnia cigana. “Por vezes são um bocadinho agressivos entre eles e as capacidades de aprendizagem são um pouco sucintas. Nem sempre estão motivados para trabalhar, é preciso motivá-los tal como todas as crianças”, explicou ao nosso jornal. “Tal como lhe damos carinho, temos que os repreender quando é preciso”, conclui.

A professora refere que “tem que arranjar actividades diferentes” para que eles ganhem motivação para aprender. “Não conseguem estar muito tempo sentados… fazem um exercício e depois vão, por exemplo, até ao computador”, explica. Apesar destas dificuldades, Helena Lourenço salienta aspectos positivos dos seus alunos: “Gostam muito de ir ao computador e à Internet – este é o único sítio onde tem acesso ao computador – e são muito bons nas contas de cabeça”.

Na Escola de Carrazede “nunca há dias iguais” para esta turma. “Temos que ser muito firmes com eles”, refere Luísa Lopes, auxiliar de educação neste escola há 24 anos. “São crianças mais mexidas que as outras e têm um vocabulário um pouco diferente do nosso… Às vezes não conseguimos perceber o que dizem”, explica. O facto de trabalhar nesta escola há muitos anos com crianças ciganas pode também representar uma vantagem, segundo Luísa Lopes. “Ficamos a saber coisas da cultura deles, expressões diferentes e também alguns ‘truques’ que utilizam”, explica. Da vasta experiência que tem, Luísa Lopes refere que nunca tiveram problemas com estes alunos fora dali, quando vão em visita de estudo. “Quando vamos passear até Lisboa, ao Centro Comercial Vasco da Gama, por exemplo, portam-se bem e não mexem em nada”, explica. “Para mim são crianças iguais às outras. Como são discriminados podem sentir alguma revolta, é compreensível que sejam mais violentos”, refere a auxiliar educativa.

Alunos pertencem ao mesmo núcleo familiar

A professora Helena Lourenço tenta que o dia-a-dia nesta escola – que funciona das 8H30 às 15H, com uma hora para almoço – seja semelhante ao de outras escolas básicas. “Eles chegam, entram e fazem uma actividade de matemática ou língua portuguesa. Se tiverem uma experiência para contar do dia anterior, deixo-os falar e contar. Eles confiam muito em nós”, explica-nos esta professora. No período da tarde, a professora opta por fazer uma actividade mais lúdica ou física. Sempre que o tempo está bom aproveitam para fazer exercício físico no recreio ou para jogarem a alguma coisa.


Os sete alunos desta escola pertencem todos ao mesmo núcleo familiar e vivem na zona do Carrascal. “São três irmãos, mais outros três e uma prima”, explica Helena Lourenço. O facto de se conhecerem bem leva a algumas zangas em plena sala de aula, às vezes difíceis de controlar por parte das professora e auxiliar. “Começam a picar-se uns aos outros e depois temos que os separar…. Passado um bocado já está tudo bem”, explicam.
Segundo Luísa Lopes, os pais destes alunos não se importam quando as crianças são castigadas quando se portam mal. “Se fosse outra criança bastava um ralhete para que no outro dia aparecesse aqui o pai dela a pedir satisfações… os pais destes miúdos não. Sabem que estamos a tentar educá-los”, explica. “Eles não são queixinhas para os pais”, comprova a professora.
A escola de Carrazede teve sempre alunos ciganos mas que tinham como colegas outras crianças. “Esta escola já teve alunos, que foram colegas de crianças de etnia cigana, e que hoje são advogados e engenheiros”, explica Helena Lourenço, salientando que eles “não são maus para as outras crianças” como muitos poderão pensar.

No dia em que visitamos esta escola, os alunos estavam no recreio a brincar. “Gostamos muito de andar nesta escola. Fazemos muitas brincadeiras”, dizem em uníssono. Nice Salinas tem apenas 6 anos e resposta pronta na língua: “O que gosto mais de fazer é trabalhar e brincar. Já aprendi alguma coisita”, diz a pequena.
“Gostávamos que viessem para cá outros meninos que não fossem ciganos”, refere Domingas Salina, acrescentando que, para ela, “são crianças como eles”. Já para Edgar, o ideal seria que a escola tivesse mais alunos rapazes. “Deviam vir para aqui mais meninos para termos com quem jogar à bola”, referiu antes de iniciar uma actividade física promovida pela Escola de Futebol que, neste dia, também ali estava presente para contentamento destes alunos especiais.

2 comentários:

Mais Notas Soltas disse...

Donde se prova que o povo é racista, certo? Os meninos ciganos não fazem mal a ninguém. Não agridem, não roubam. O povo é que tem ideia errada da realidade. Amén.

DEijinha disse...

Amo os ciganos , são brasileiros , chamados "minoria", mas foram eles
quem alegraram a reis e condes deste país Brasil. Faço parte dessa etnia e me orgulho de ser descendente de cigano, negro, índio e italiano.
Que mistura é essa? É miscigenação brasileira. E viva o povo brasileiro!!!